Olá, tudo bem? #5 :: Nunca Antes Visto
Olá, tudo bem? #5
Escrito por: Anónimo
(Na semana passada, este blog não foi agraciado com mais um texto da minha autoria, o que me deixou particularmente transtornado e preocupado. Afinal, que será dos leitores sem mim, não é verdade? Eis que chego ao Naviv e o meu coração descansa. Fui substituído por uma rúbrica chamada "O Cu da Gaja". Valha-nos isso, ao menos substituem-nos por material de qualidade. Brincadeira. Hoje decidi deixar de lado a minha claramente promissora veia poética.)



Todos os dias lido com morte, sofrimento, ansiedade, lágrimas, emoção. Vida de médico não é fácil, e eu ainda nem o sou. Mas a verdade é que, quando se tem aulas no Instituto Português de Oncologia, é praticamente impossível passar indiferente ao sofrimento que por lá se vive.


Seja médico ou louco, que de todos temos um pouco, qualquer um de nós sabe que, dentro de todo o tipo de doenças que nos podem vir a fazer a vida num inferno, há um subgrupo particular que causa especial terror a quem quer que seja. O cancro. E é com este tipo de casos que instituições como o IPO lidam diariamente. Algumas histórias têm final feliz, outras nem por isso, mas a verdade é que, felizmente, hoje em dia a probabilidade de se afigurar um final feliz para uma dessas histórias é cada vez maior. De qualquer forma, isso não nos livra de um valente susto, de várias horas, dias, meses de sofrimento e, inclusivamente, de inúmeras morbilidades que podem condicionar a nossa vida daí em diante. E, apesar de ser absolutamente impossível estabelecer algum tipo de comparação, a verdade é que todos aqueles que assistem ao sofrimento das pessoas acabam por sofrer bastante também, por mais que se tentem abstrair da situação e tentem ser o mais profissionais possível. Não dá.


Conto-vos isto por uma razão especial. Há dias, enquanto me preparava para enfrentar um júri assustador e sedento de sangue (exame oral) e lidava com a minha angústia e apreensão, vejo algo de que, provavelmente, nunca mais me vou esquecer. Um homem, no mínimo com 40 anos, abraçado a um senhor mais velho, a chorar como uma criança. É nestas alturas que penso: "Estou aqui preocupado com um exame, no meio de pessoas que lutam pela vida e muitas das vezes perdem, dão a alma, o corpo, dão tudo o que têm, depositam a vida e mais ainda, se tal fosse possível, nas mãos de um grupo de profissionais que tenta fazer o melhor que consegue para o salvar... Estou eu aqui a suar de nervosismo, enquanto ao meu lado está alguém que já passou por dores inimagináveis, que já chorou, riu, acreditou, desesperou, que nem sabe sequer se vai ou não viver por mais um dia... O que são os meus problemas comparados com os desta gente? O que significa um exame, meia hora de humilhação, comparado com dores insuportáveis, cabelo a cair, náuseas, vómitos, alucinações, desespero, choro, morte?".


E se inicialmente entrei para este curso olhando para a minha conta bancária ao final do mês e para as perspectivas de emprego e vida estável, hoje, depois de tudo aquilo que já vi e por que já passei (e que, no fim de contas, é ainda tão pouco), posso dizer que a principal força que me move é a perspectiva de poder dar uma vida melhor às pessoas, doentes oncológicos ou não. Poder curá-las, tratá-las, ver a alegria nos seus olhos quando descobrem que estão curadas, ter a satisfação de poder dizer às suas familias que não há nada a temer... E quando assim não é possível, tentar, pelo menos, diminuir ao máximo o sofrimento pelo que as pessoas têm de passar, dar-lhes uma perspectiva de vida minimamente aceitável... O que é um ordenado chorudo ou um bom carro comparativamente com isto? Há algum dinheiro que pague uma vida? Há algo mais importante na vida do que fazer bem, ajudar as pessoas?


As pessoas normalmente têm a tendência de achar os médicos uma cambada de arrogantes, pessoas frias e sem sentimentos, incapazes de mostrar alguma compaixão pelos demais... Pessoalmente acho esse título particularmente injusto (claro que há excepções... Há médicos que são autênticos lavradores, mas isso é como em tudo, tanto podemos ser atendidos nas Finanças por um tipo simpático que nos resolve o problema do IRS fora do prazo, como podemos dar de caras com um elefante mal-humorado que resolver infernizar-nos a vida em tudo aquilo que possa). Os médicos, enfermeiros e auxiliares são, muito mais do que qualquer outra pessoa, as pessoas que mais têm de lidar com sofrimento e dor alheia. E acreditem, por vezes dá mesmo vontade de chorar, mas a verdade é que todos eles estão ali a fazer o seu trabalho e, como tal, é extremamente importante manter a cabeça fria. Acima de tudo, há que ser profissional. Com isto não quero dizer que tenhamos de ser uns autênticos animais irracionais, mas é muito importante manter uma distância de segurança. Até mesmo para nosso próprio bem. Digam-me, se cada vez que lidamos com o caso de uma velhinha simpática que morre inesperadamente durante o internamento, ou um rapaz de 18 anos que tem um acidente de mota e, mesmo com todos os nossos esforços, acaba por morrer, o que seria da nossa sanidade mental se desatássemos a chorar e nos envolvêssemos como se fosse um familiar ou amigo? Para além de passarmos o dia inteiro a chorar, nem sequer nos ia ser possível realizarmos bem o nosso trabalho, a razão pela qual ali estamos...


Ser médico ou profissional de saúde é uma profissão extremamente gratificante, não tenho qualquer tipo de dúvidas disso. Posso ainda não ser médico, mas sei perfeitamente que, apesar de, muito provavelmente, ir lidar com inúmeros casos que não vão acabar bem (quer por culpa minha, quer porque simplesmente não havia mais nada a fazer), a sensação de me deitar ao final do dia e pensar: "Se eu não estivesse ali, aquela pessoa não tinha sobrevivido.", lembrar-me da alegria da filha de 4 anos que vê o pai a voltar para casa depois de um longo e doloroso período de internamento, poder dizer a uma família: "Não se preocupem. O vosso familiar vai ficar bem." é demasiado gratificante para alguma vez pensar em desistir. Enquanto aqui estiver, enquanto ainda me for possível, vou fazer tudo aquilo que está ao meu alcançe para poder trazer algo de bom ao mundo e às pessoas. E não há nada melhor que isso.

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Blogger Hugo Pais argumenta de forma nunca antes vista, dizendo...
Escrevi à uns meses a minha opinião sobre o estado da saúde em Portugal, que pode ser lido aqui: http://naviv.blogspot.com/2008/08/mvps-lounge-11-mdicos.html .

Mas tentando pôr-me na pele de um médico... É uma vida complicada, lidar com a morte não é para toda a gente... Boa sorte para o resto do teu curso e na tua carreira!
19 de novembro de 2009 às 01:03  
Blogger Horizonte argumenta de forma nunca antes vista, dizendo...
Bom artigo.

A vida não é fácil para ninguém, quer para os doentes quer para os médicos. E como o MVP diz, boa sorte.
19 de novembro de 2009 às 11:40  
Anonymous Anónimo argumenta de forma nunca antes vista, dizendo...
foda.se... diz me la o teu nome para eu nunca ter o azar de me passares as maos pelo pelo -.-
19 de novembro de 2009 às 21:34  
Anonymous Anónimo argumenta de forma nunca antes vista, dizendo...
Ética heterónoma do raio!
19 de novembro de 2009 às 21:45  
Blogger L I O N H E A R T argumenta de forma nunca antes vista, dizendo...
cumprimentos de um colega de curso e futuro colega de profissão.

embora não partilhe muitas das tuas ideias, sei perfeitamente ao que te referes estudando dentro de um hospital todos os dias.
20 de novembro de 2009 às 20:05  
Anonymous Anónimo argumenta de forma nunca antes vista, dizendo...
Obrigado a todos aqueles que efectuaram comentários com lógica.

Então LIONHEART? Discordas de quê? Abraço
20 de novembro de 2009 às 22:54